Pão com chouriço frito – Um pedaço do céu com sabor a terra


Num tempo que já se perdeu nas curvas do campo, quando os dias se mediam pelo canto do galo e pelo calor do sol nas costas, vivia-se devagarinho no coração do Alentejo. As casas eram caiadas de branco, com risquinhas azuis ou amarelas, e os velhos bancos de madeira à porta esperavam sempre uma conversa mansa ao fim da tarde.
Naquela altura, não havia pressas — nem precisavam. A vida fazia-se de gestos simples, como o estalar do lume na lareira ou o cheiro do pão quente a sair do forno da ti’Maria.
E era nesse forno que, de vez em quando, se fazia um mimo que punha todos de olhos brilhantes: o pãozinho com chouriço frito.
O chouriço, já curado no fumeiro pendurado por cima da lareira, era cortado às rodelinhas grossas e atirado com amor para uma frigideira preta, daquelas que já sabiam segredos de gerações. Assim que tocava no ferro quente, o chouriço dançava, estalava e libertava aquele molho avermelhado, espesso, que se agarrava aos dedos e ao coração.

O pão, sempre o pão — alentejano, de crosta dura e miolo macio, era aberto ao meio e deixado absorver o molho quente. E quando se juntava tudo, chouriço e molho no pão… ai, valha-nos Nossa Senhora! Aquilo era um pedaço do céu com sabor a terra.
Comia-se de pé, à sombra da azinheira ou encostado ao muro de pedra, com os dedos lambuzados e um sorriso de quem não precisava de mais nada. E mesmo que a barriga já estivesse cheia, havia sempre espaço para mais uma dentadinha, porque essas memórias… essas não se engolem, saboreiam-se.
Como nesta imagem — um quadro de saudade, onde o pão alentejano ainda bebe o sumo do chouriço frito, como se o tempo tivesse parado só para nos lembrar: a simplicidade tem sabor.
Fotos meramente ilustrativas da página Cachopo, uma aldeia com história
Texto de https://receitasdoalentejo.pt/