Sapateiros de antigamente. Quando uns sapatos duravam quase uma vida

Sapateiros de antigamente. Quando uns sapatos duravam quase uma vida

👞 O Sapateiro da Rua Velha — quando uns sapatos duravam quase uma vida

Ainda me lembro do tempo em que, cá no Alentejo, deitar fora uns sapatos só porque a sola estava gasta era coisa que nem passava pela cabeça de ninguém.

Os sapatos tinham outro valor. Custavam dinheiro, davam trabalho a fazer e, muitas vezes, tinham de durar anos. Quando começavam a abrir à frente, quando o salto ficava torto ou aparecia um buraco na sola, havia um homem que tratava do assunto: o sapateiro.

Na nossa terra havia um numa ruazinha estreita, perto da venda. Chamavam-lhe o Ti Zé Sapateiro. Nunca soube se aquele era mesmo o apelido dele ou se, de tantos anos a remendar calçado, acabou por ficar conhecido assim.

Uma oficina onde quase não cabia mais nada

A oficina era pequena, escura e cheia de coisas.

Havia sapatos pendurados nas paredes, botas de trabalho umas por cima das outras, caixas com pregos, pedaços de couro, atacadores, fivelas, formas de madeira e ferramentas que nós, miúdos, nem sabíamos para que serviam.

Ao fundo estava o Ti Zé, sentado num banco baixo, com um avental grosso de couro por cima das pernas.

Passava horas naquela posição.

Sapato numa mão, ferramenta na outra.

E havia um cheiro que nunca mais esqueci: couro, cola, graxa e madeira velha.

Hoje talvez ninguém achasse aquilo agradável. Naquele tempo era o cheiro de uma profissão.

“Isto ainda dá para mais uns anos”

O meu pai tinha umas botas castanhas que levava para o campo.

Apanharam chuva, lama, poeira, geadas e os verões de quarenta graus que só quem viveu no Alentejo sabe bem o que são.

Um dia abriu-se uma das solas.

Eu pensei logo:

— Agora o pai vai comprar umas novas.

Nem pensar.

Pegou nas botas, atou-as uma à outra pelos atacadores e fomos ao sapateiro.

O Ti Zé olhou para elas, dobrou a sola com os dedos, abanou a cabeça e disse:

Isto ainda dá para mais uns anos.

E deu.

Pôs sola nova, reforçou o calcanhar, passou-lhes graxa e, quando voltámos para as buscar, pareciam outras.

Não eram novas.

Mas estavam prontas para continuar a trabalhar.

E isso era o que interessava.

O sapateiro sabia a vida da terra inteira

A oficina também era uma espécie de ponto de encontro.

Enquanto alguém esperava por umas botas, falava-se da chuva que não vinha, da seara, do preço do trigo, de quem tinha ido para França, de quem regressara de Lisboa e até de algum namoro que era melhor não chegar aos ouvidos dos pais.

O sapateiro ouvia tudo.

Mas dizia pouco.

Talvez fosse essa uma das razões por que toda a gente confiava nele.

Via entrar os sapatos das crianças para a escola, as botas dos homens do campo, os sapatos pretos usados aos domingos e até aqueles pares melhores que só saíam da caixa para um casamento, um batizado ou uma festa da aldeia.

Pelos sapatos, quase se podia contar a vida das pessoas.

Naquele tempo, primeiro consertava-se

Hoje vivemos num tempo diferente.

Uma coisa estraga-se e muitas vezes compra-se outra.

Naquele tempo fazia-se exatamente o contrário.

Primeiro tentava-se arranjar.

Uma sola mudava-se.

Um salto pregava-se novamente.

Uma costura abria e tornava-se a coser.

Até uns sapatos já deformados podiam ganhar mais uns meses ou mais uns anos de serviço.

Não era romantismo.

Era necessidade.

O dinheiro era pouco e tudo tinha de ser aproveitado até ao fim.

Mas talvez essa necessidade nos tenha ensinado uma coisa que fomos esquecendo: o valor das coisas não terminava no primeiro defeito.

As mãos negras de graxa

Recordo-me sobretudo das mãos do Ti Zé.

Mãos grossas, marcadas pelo trabalho, quase sempre escuras da graxa.

As unhas nunca estavam completamente limpas e os dedos tinham pequenos cortes antigos, calos e marcas de ferramentas.

Mas eram aquelas mãos que pegavam num par de botas quase perdido e o punham novamente a caminho.

Não havia máquinas modernas.

Havia experiência.

Havia paciência.

E havia uma coisa que hoje começa a tornar-se rara: saber fazer alguma coisa verdadeiramente bem com as próprias mãos.

Um dia a porta fechou

Os anos passaram.

Vieram sapatos mais baratos, fábricas maiores, lojas com modelos novos todas as semanas e calçado que, muitas vezes, ficava mais barato substituir do que reparar.

A oficina do Ti Zé começou a ter menos clientes.

Primeiro deixou de abrir aos sábados.

Depois começou a fechar algumas tardes.

Até que um dia passei naquela rua e a porta estava fechada.

No vidro havia apenas um papel pequeno.

“Encerrado.”

Não houve cerimónia.

Nem homenagem.

Nem fotografia para o jornal.

Desapareceu apenas mais um daqueles ofícios que pareciam destinados a existir para sempre.

Mas durante muito tempo, sempre que passava por aquela porta, ainda me parecia sentir o cheiro da graxa e ouvir as pancadinhas do martelo nos tacões.

Tac. Tac. Tac.

Era quase o relógio daquela rua.

E talvez seja por isso que fotografias como esta mexem tanto connosco.

Não mostram apenas um homem a consertar sapatos.

Mostram um tempo em que se consertavam as coisas antes de desistir delas.