QUEM SE LEMBRA DA TOSQUIA DAS OVELHAS FEITA À MÃO?

QUEM SE LEMBRA DA TOSQUIA DAS OVELHAS FEITA À MÃO?

🐑 A tosquia manual das ovelhas — quando a lã começava nas mãos de quem sabia cortar sem ferir

A imagem mostra uma prática antiga e profundamente ligada à vida rural portuguesa: a tosquia manual das ovelhas com grandes tesouras de ferro, antes de as máquinas elétricas se tornarem comuns. Era um trabalho exigente, feito com força, paciência e sobretudo muita experiência, porque o objetivo não era apenas retirar a lã. Era fazê-lo de forma rápida, aproveitando o velo e evitando magoar o animal.

 

A tosquia realizava-se normalmente quando o tempo começava a aquecer e a lã já tinha atingido o comprimento adequado. As ovelhas eram trazidas uma a uma e colocadas numa posição que permitisse ao tosquiador trabalhar com segurança. Depois começava o corte, com movimentos longos e firmes. A tesoura tinha de passar muito perto da pele, mas sem a prender nem provocar cortes.

Quem conhecia bem o ofício conseguia retirar grande parte da lã quase numa única manta. Esse conjunto de lã, conhecido como velo, era depois separado, limpo e escolhido de acordo com a qualidade. As zonas mais sujas ou com lã inferior eram retiradas, enquanto as melhores partes seguiam para diferentes utilizações.

 

A fotografia mostra também algo importante: este trabalho não era exclusivamente masculino. Em muitas explorações familiares, as mulheres participavam em praticamente todas as tarefas relacionadas com os animais. Sabiam alimentar, tratar, ordenhar quando era necessário e, em alguns casos, também tosquiar. O conhecimento passava de geração em geração e aprendia-se sobretudo observando quem já tinha prática.

As antigas tesouras de tosquia eram ferramentas simples, mas exigiam uma mão treinada. Tinham duas lâminas compridas unidas por uma mola de metal, funcionando através da força da própria mão. Depois de muitas ovelhas, os dedos e os braços começavam a sentir o esforço. Ainda assim, era necessário manter a mesma precisão até ao fim.

A lã tinha valor e praticamente nada se desperdiçava. Depois da tosquia podia ser lavada, seca, cardada e fiada. Em muitas casas rurais, transformava-se em fio para meias, mantas, camisolas, cobertores e outras peças de uso doméstico. Noutras situações era vendida, constituindo mais uma fonte de rendimento para a família.

O trabalho continuava muito depois de a lã sair do animal.

Era preciso estendê-la.

Separá-la.

Lavá-la.

Deixá-la secar.

E só depois começar a prepará-la para fiação ou venda.

Todo o processo exigia tempo e mão de obra.

Também a altura da tosquia era importante para o bem-estar das ovelhas. Feita no momento certo, ajudava o animal a enfrentar os meses mais quentes sem carregar uma camada excessiva de lã. Mas uma tosquia demasiado precoce podia deixá-lo vulnerável ao frio e à chuva.

Por isso, os pastores e criadores observavam o tempo e conheciam bem os animais antes de começar.

Hoje a maior parte das grandes explorações utiliza máquinas próprias, capazes de fazer o trabalho muito mais depressa. A técnica tornou-se mais eficiente, mas a tosquia manual continua viva em pequenas produções, demonstrações tradicionais e em locais onde se preservam métodos antigos.

Fotografias como esta lembram uma época em que cada etapa dependia diretamente das mãos.

A ovelha dava a lã.

A tesoura fazia o corte.

E depois começava outro trabalho, igualmente demorado, até aquela fibra se transformar em algo útil.

Antes de a lã chegar à roca, ao tear ou a uma peça de roupa, havia alguém que precisava de saber retirá-la do animal sem a estragar e sem o ferir.