O Tarro Alentejano. A Marmita dos pastores feita de cortiça.

O Tarro Alentejano. A Marmita dos pastores feita de cortiça.

🪵 O Tarro Alentejano — A Marmita dos pastores feita de cortiça

Quem olha hoje para este recipiente pode pensar que é apenas um velho balde de cortiça.
Mas, no meu tempo, isto chamava-se tarro — e para um homem do campo valia muito.
Eu saía de casa ainda antes de nascer o sol, com o cajado numa mão, o alforge ao ombro e o tarro bem fechado. Lá dentro seguia o almoço preparado pela minha mulher: umas sopas, feijão, grão, migas ou carne com molho, conforme aquilo que havia.

Não existiam marmitas térmicas, caixas de plástico nem micro-ondas.
Existia a cortiça.
E a cortiça fazia o trabalho muito bem.

O tarro tradicional era um recipiente com tampa e asa, geralmente feito pelo próprio pastor ou por alguém com experiência no trabalho da cortiça. Servia para guardar e transportar os alimentos, ajudando a conservar durante algumas horas uma temperatura próxima daquela com que tinham saído do lume.

🌳 Feito com aquilo que o montado oferecia

No Alentejo, o pastor conhecia a cortiça quase tão bem como conhecia o rebanho.
Escolhia-se uma prancha com espessura suficiente e superfície regular. Depois era preciso moldá-la, unir as extremidades e prender tudo com pequenos pregos, cavilhas ou tiras de cortiça.
Fazia-se ainda o fundo, a tampa e a asa.
Não era trabalho para quem tivesse pressa.
Um tarro mal fechado deixava fugir o caldo. Um mal equilibrado virava-se durante a caminhada. Por isso, cada peça exigia mão segura e experiência.
Muitos eram talhados à navalha pelos próprios pastores, aproveitando um material abundante na região e adaptado à vida dura dos campos.

🐑 O almoço no meio do campo

Ao meio-dia procurava-se a sombra de uma azinheira ou de um sobreiro.
O rebanho sossegava, os cães deitavam-se por perto e nós abríamos o tarro.
Ainda me lembro daquele cheiro a subir quando se levantava a tampa.
Havia dias em que levávamos açorda, sopas de pão, feijão com carne ou um cozido simples. Noutros, eram apenas batatas, pão, azeitonas e um pedaço de toucinho.
Os pastores que passavam o dia longe de casa levavam frequentemente a refeição quente no tarro, enquanto o pão podia seguir no alforge preso à cintura.
Não era comida bonita para fotografias.
Era comida forte, feita para aguentar horas a andar atrás das ovelhas, debaixo do sol, do vento ou da chuva.

🍲 Muito antes das marmitas térmicas

Hoje compra-se uma caixa térmica com isolamento e fecho hermético.
O tarro fazia algo semelhante usando apenas cortiça, madeira e habilidade manual.

A cortiça ajudava a retardar a perda de calor e também protegia o recipiente. Não mantinha a comida eternamente quente, claro, mas permitia que chegasse à hora do almoço ainda morna e protegida. Foi precisamente essa função que tornou o tarro indispensável no quotidiano dos pastores alentejanos.

Era simples, leve, resistente e podia ser reparado.
Quando uma asa se partia, fazia-se outra.
Quando a tampa deixava de ajustar, corrigia-se.
Não se deitava fora.

❤️ Um objeto pequeno com uma vida inteira lá dentro

O tarro transportava comida, mas carregava muito mais do que isso.
Levava o cuidado de quem ficava em casa.
Levava o cheiro da cozinha.
Levava um pouco de conforto para quem passava o dia sozinho no campo.
Hoje tenho saudades de abrir a tampa e sentir aquele vapor misturado com o cheiro da cortiça.
A comida era simples e o trabalho era duro.

Mas, à sombra de uma azinheira, um tarro cheio sabia melhor do que qualquer almoço de restaurante.
O tarro era a marmita dos pobres. Mas ninguém que tivesse um bom almoço lá dentro se sentia pobre.

👇 Quem ainda se lembra dos tarros de cortiça? Na vossa família eram usados para levar sopas, feijão, migas ou outro prato para o campo?