QUEM SE LEMBRA DA ESCOLA PRIMÁRIA DE ANTIGAMENTE?
📚 A Escola Primária de Antigamente — quando se aprendia com giz, ardósia e muito respeito
Ainda me lembro bem da escola primária do meu tempo. Era uma sala simples, com carteiras de madeira alinhadas umas atrás das outras, um quadro preto à frente e a professora de pé, junto à secretária. Não havia computadores, projetores nem estas coisas modernas que hoje os miúdos têm. Havia livros, cadernos, lápis, giz e, para muitos de nós, a velha ardósia onde fazíamos contas, copiávamos palavras e repetíamos tudo até ficar certo.
De manhã entrávamos quase em silêncio. Cada um ia para o seu lugar e esperava que a professora começasse. Havia respeito, mas também havia medo, não vale a pena fingir que não. Naquele tempo a autoridade do professor não se discutia. Quando ele ou ela entrava, endireitávamo-nos logo na carteira. Bastava um olhar para percebermos que era altura de deixar as conversas para depois.
Eu ainda me lembro de chegar à escola com as mãos frias nos dias de inverno. Cá no Alentejo, as manhãs podiam ser bem geladas. Havia salas em que o frio entrava pelas janelas e nós escrevíamos com os dedos quase dormentes. Mesmo assim lá íamos fazendo a cópia, as contas e a leitura.
Primeiro aprendiam-se as letras.
Depois as sílabas.
Depois vinham as frases.
E quando a professora mandava alguém ler em voz alta, havia sempre aquele momento em que o coração começava a bater mais depressa.
— Vá lá, lê tu agora.
Levantávamo-nos junto da carteira, agarrávamos no livro e começávamos. Quem lia bem respirava de alívio. Quem tropeçava numa palavra ficava logo vermelho, mas tornava a tentar.
As contas eram outro respeito.
No quadro apareciam somas, subtrações, multiplicações e divisões. E a tabuada tinha de estar na cabeça. Não havia calculadora para salvar ninguém.
A professora perguntava:
— Sete vezes oito?
E nós tínhamos de responder:
— Cinquenta e seis!
Se demorávamos muito, já sabíamos que vinha outra pergunta a seguir.
Também se fazia muita cópia. Letras direitas, palavras bem separadas e cuidado com os erros. Um borrão ou uma linha torta podia significar repetir a página. Hoje parece exagerado, mas foi assim que muita gente ganhou uma letra bonita e uma enorme atenção ao que escrevia.
Lembro-me também dos colegas.
Uns vinham da vila, outros de montes mais afastados. Alguns faziam um bom pedaço de caminho a pé. Havia quem levasse o almoço embrulhado num pano ou dentro de uma pequena lancheira. Pão com queijo, marmelada, chouriço ou simplesmente pão.
E ninguém fazia grande cerimónia.
Na hora do recreio mudava tudo.
A sala silenciosa desaparecia e o pátio enchia-se de gritos, corridas e brincadeiras. Jogávamos ao berlinde, ao pião, à apanhada ou aquilo que aparecesse. Não era preciso muito para haver alegria.
Depois tocava para entrar.
E lá voltávamos nós às carteiras.
Não quero dizer que tudo naquela escola antiga fosse melhor. Não era. Havia castigos demasiado severos, muita rigidez e crianças que tinham dificuldades e nem sempre recebiam a ajuda de que precisavam.
Mas havia também coisas que ficaram.
O respeito pelo professor.
O cuidado com os livros.
A obrigação de ouvir.
A disciplina para terminar uma tarefa.
E a ideia de que aprender exigia esforço.
Eu ainda guardo na memória o cheiro dos livros novos, o pó do giz no quadro e aquele silêncio quando a professora começava a escrever.
Às vezes penso que aprendíamos com muito pouco. Uma carteira de madeira. Um quadro. Um pedaço de giz. Um livro. E alguém à nossa frente disposto a ensinar.
E talvez por isso, quando vejo uma fotografia de uma escola antiga, não vejo apenas alunos sentados numa sala.
Vejo a infância inteira sentada naquelas carteiras.
