AS SERINGAS DE VIDRO E METAL — HAVERÁ AINDA QUEM SE LEMBRE DELAS?
💉 As Seringas de Vidro e Metal — haverá ainda quem se lembre de levar uma injeção com estas?
Ainda me lembro bem delas. Só de olhar para uma fotografia destas parece que o braço começa logo a doer por antecipação. Eram seringas de vidro, pesadas, com peças metálicas e agulhas que metiam respeito só de olhar para elas. Nada daquelas seringas descartáveis de hoje, leves e embaladas individualmente. Naquele tempo, em muitas casas, postos médicos e consultórios, aquelas seringas eram usadas vezes sem conta, sendo depois lavadas e esterilizadas para voltarem ao serviço. Quem era pequeno nem precisava de ver a agulha: bastava ouvir dizer “vais levar uma injeção” para começar logo a inventar uma dor de barriga, uma vontade de ir à casa de banho ou qualquer desculpa que desse para fugir dali.
Lembro-me de uma senhora que dava injeções lá na terra. Não era preciso grande cerimónia. Chegava-se a casa, arregaçava-se a manga ou baixavam-se um pouco as calças, conforme o sítio onde fosse levar a injeção, e ela preparava tudo com uma calma que só aumentava o medo de quem estava à espera. A seringa de vidro brilhava, a agulha parecia enorme aos olhos de uma criança e ainda havia aquele momento terrível em que ela dizia: “Não te mexas, que isto é só uma picadinha.” Uma picadinha coisa nenhuma. Para nós parecia que vinha aí uma lança. E quando a agulha entrava, havia sempre quem cerrasse os dentes, apertasse a mão da mãe ou desse um pequeno salto que depois rendia ralhete: “Então eu não te disse para ficares quieto?”
Naquele tempo também não havia a facilidade de hoje para se mandar tudo fora depois de usar. As coisas eram feitas para durar, até no material médico. As seringas eram desmontadas, limpas, tratadas e voltavam a ser utilizadas. Muitas ficavam guardadas em caixas metálicas, como esta da fotografia, juntamente com várias agulhas. Para quem viveu aqueles anos, aquela caixa não era um simples objeto. Era quase uma ameaça. Bastava vê-la aparecer em cima da mesa para logo toda a gente perceber o que aí vinha.
E havia uma coisa curiosa: os adultos diziam sempre que “não custava nada”, mas depois, quando chegava a vez deles, também torciam a cara. Alguns até faziam questão de olhar para o lado. Era assim. A coragem aumentava muito quando a injeção era para os outros.
Hoje tudo é diferente. As seringas são descartáveis, as agulhas são muito mais finas e os procedimentos são mais seguros e controlados. Ainda bem. Mas quem apanhou aquelas seringas antigas de vidro e metal não esquece facilmente a imagem.
Porque há objetos que desaparecem e deixam saudade.
Estas, talvez deixem mais arrepio do que saudade. 😄
