O tabaco de enrolar e os velhos Kentucky que andavam no bolso de tantos homens
🚬 O tabaco de enrolar e os velhos Kentucky que andavam no bolso de tantos homens
Quem trabalhou no campo no Alentejo de outros tempos há de se lembrar desta imagem. Um homem, uma forquilha ao ombro, o chapéu enterrado na cabeça e, quando chegava a hora de descansar um instante, as mãos iam logo ao bolso procurar o tabaco e as mortalhas. Não havia grandes cerimónias. Punha-se um pouco de tabaco no papel, ajeitava-se com os dedos já negros da terra, enrolava-se devagar e passava-se a língua na beira da mortalha. Ficava pronto. Uns faziam aquilo tão depressa que quase nem olhavam para as mãos. Outros preferiam os conhecidos Kentucky, que durante muitos anos ficaram ligados à memória de uma geração inteira de fumadores.
Lembro-me de ver os homens fazerem uma pausa debaixo de uma azinheira, depois de uma manhã a cavar, ceifar, podar ou tratar dos animais. Sentavam-se numa pedra, tiravam o chapéu por momentos e começava a conversa. Um enrolava o cigarro, outro pedia lume e havia sempre aquele que dizia: “Dá cá uma mortalha que as minhas acabaram.” O isqueiro nem sempre existia. Muitas vezes havia uma caixa de fósforos já amassada no bolso das calças, guardada como se fosse ferramenta de trabalho. Acendia-se o cigarro, davam-se duas ou três passas e ficava-se uns minutos em silêncio a olhar para o campo. Era uma pausa curta, porque o trabalho não desaparecia enquanto se descansava.
O tabaco de enrolar também tinha muito a ver com a economia daqueles tempos. O dinheiro não abundava e cada tostão contava. Havia homens que mediam bem o tabaco que colocavam em cada cigarro para o pacote durar mais uns dias. Não se desperdiçava quase nada. Até a última ponta de tabaco no fundo da bolsa era aproveitada. E os Kentucky ficaram na memória de muitos juntamente com outras coisas que faziam parte daquele quotidiano: o canivete no bolso, o lenço ao pescoço, a garrafa de água, o pão embrulhado num pano e a ferramenta que acompanhava o homem durante todo o dia.
Ao meio-dia, depois da comida, repetia-se muitas vezes o ritual. Um pedaço de pão, umas azeitonas, talvez queijo ou toucinho, um gole de vinho e depois o cigarro. A conversa começava no tempo — porque no campo fala-se sempre primeiro do tempo — e acabava sabe-se lá onde. Falava-se da seara, da chuva que não vinha, do patrão, de alguém que tinha ido para França ou de um filho que estava na tropa. E o cigarro ia ardendo lentamente entre dois dedos calejados.
Hoje sabemos muito melhor os graves riscos do tabaco para a saúde, e isso não deve ser escondido. Mas recordar estas imagens não é defender o hábito de fumar. É recordar uma forma de viver e pequenos gestos que fizeram parte do quotidiano de milhares de trabalhadores rurais.
Porque quem olha para esta fotografia talvez veja apenas um homem com um cigarro na boca e uma forquilha ao ombro.
Quem viveu aquele Alentejo vê outra coisa.
Vê uma pausa no meio de um dia de trabalho duro, sente o cheiro da terra e ainda parece ouvir alguém debaixo da azinheira perguntar:
— Ó compadre… tens aí uma mortalha?
