QUEM SE LEMBRA DAS MONDADEIRAS NOS CAMPOS DO ALENTEJO?
🌾 As mondadeiras — as mulheres que limpavam os campos à força das mãos
A imagem mostra uma das figuras mais marcantes do trabalho rural português de meados do século XX: as mondadeiras, mulheres que percorriam os campos de cereais arrancando as ervas daninhas que competiam com o trigo, a cevada e outras culturas. No Alentejo, onde a agricultura cerealífera tinha um peso enorme na vida económica e social, a monda era uma tarefa indispensável e extremamente exigente.
As mondadeiras trabalhavam muitas vezes em grupos, alinhadas ao longo do campo. Avançavam devagar, curvadas durante longos períodos, retirando à mão ou com pequenas ferramentas as plantas indesejadas. O objetivo era deixar espaço, água e nutrientes para que os cereais se desenvolvessem melhor. Era um trabalho minucioso, repetitivo e cansativo, feito numa altura em que não existiam os meios mecânicos e químicos hoje usados em muitas explorações agrícolas.
A jornada começava cedo. Muitas mulheres saíam de casa ainda com a manhã fresca, levando alguma comida embrulhada num pano, água e a roupa apropriada para enfrentar horas ao ar livre. Chapéus de aba larga, lenços e mangas compridas ajudavam a proteger do sol, do vento e do contacto constante com a vegetação.
Depois começava a rotina.
Baixar.
Arrancar.
Avançar alguns passos.
Voltar a baixar.
Durante horas.
Quem observasse o campo de longe podia ver uma longa linha de mulheres a progredir lentamente pela seara. Uma ao lado da outra, iam limpando o terreno, deixando para trás as culturas principais e retirando aquilo que podia prejudicar a colheita.
O corpo pagava caro por esse trabalho. As costas permaneciam dobradas durante grande parte do dia, as mãos estavam constantemente em contacto com a terra e as plantas, e o calor tornava tudo ainda mais difícil. Mesmo assim, era necessário acompanhar o ritmo do grupo e cumprir a parcela que estava destinada a cada jornada.
Para muitas famílias, o dinheiro ganho na monda era fundamental. O trabalho agrícola era frequentemente sazonal, e cada campanha representava uma oportunidade de rendimento. As mulheres contribuíam diretamente para o sustento da casa, acumulando muitas vezes a jornada no campo com as tarefas domésticas e o cuidado dos filhos.
Mas a monda não era feita apenas de silêncio e esforço.
Entre as trabalhadoras circulavam conversas, histórias e cantigas. Falava-se da família, das colheitas, da vida da aldeia e das dificuldades de cada uma. O grupo criava uma espécie de comunidade temporária dentro do próprio campo. Em algumas regiões, as modas e os cantos ajudavam até a marcar o ritmo do trabalho e a tornar as horas menos pesadas.
Ao meio-dia procurava-se uma sombra, quando havia alguma por perto.
Sentavam-se no chão ou junto a uma árvore e abriam a merenda. Pão, queijo, azeitonas, toucinho, enchidos ou aquilo que cada uma pudesse levar de casa. A pausa era curta, mas era também um dos poucos momentos em que o corpo descansava verdadeiramente.
Depois voltavam à seara.
A monda continuava até a parcela ficar limpa.
Com o passar das décadas, o trabalho agrícola mudou profundamente. A mecanização e o uso de novos métodos de controlo de ervas daninhas reduziram a necessidade destas grandes jornadas manuais. A figura da mondadeira foi desaparecendo gradualmente dos campos, mas ficou marcada na memória de muitas comunidades rurais.
Hoje, fotografias como esta ajudam a recordar uma parte essencial da história do trabalho feminino em Portugal.
Estas mulheres não estavam apenas a arrancar ervas.
Estavam a proteger uma colheita.
Estavam a garantir rendimento.
Estavam a ajudar a alimentar as famílias.
E faziam tudo isso com poucas ferramentas, muita resistência e uma enorme capacidade de trabalho.
Antes das máquinas e dos herbicidas, foram as mãos das mondadeiras que ajudaram a manter limpas muitas das grandes searas do Alentejo.
