QUEM SE LEMBRA DE BRINCAR AO PIÃO NA RUA?

QUEM SE LEMBRA DE BRINCAR AO PIÃO NA RUA?

🪀 O pião — quando uma corda, um pedaço de madeira e uma rua faziam a festa

Durante décadas, especialmente nos anos 70 e 80, poucas coisas eram necessárias para entreter um grupo de crianças durante uma tarde inteira. Um dos brinquedos mais populares era o pião, normalmente feito de madeira, com uma ponta metálica na extremidade e uma corda enrolada à volta. Depois vinha a parte que exigia prática: lançar o pião com força suficiente para que caísse direito no chão e começasse a girar.

A imagem mostra precisamente esse instante. Uma criança segura a corda enquanto o pião roda sobre o chão irregular da rua. Não há brinquedos eletrónicos, ecrãs ou equipamentos sofisticados. O espaço de brincadeira é simplesmente o terreiro, o passeio ou a rua em frente de casa. Bastava aparecer outro miúdo com um pião no bolso e começava logo a competição.

Aprender a lançar não era tão simples como parecia. Primeiro enrolava-se cuidadosamente a corda desde a ponta metálica até ao corpo do pião. Depois prendia-se a extremidade num dedo e fazia-se um movimento rápido com o braço, soltando o brinquedo no momento certo. Quando corria bem, o pião aterrava de pé e ficava a rodar. Quando corria mal, saltava pelo chão, caía de lado ou a corda enrolava-se toda.

Mas ninguém desistia por causa disso.

Pegava-se novamente no pião, enrolava-se a corda e repetia-se o lançamento.

Os mais habilidosos conseguiam fazer verdadeiras proezas. Havia quem apanhasse o pião ainda a rodar para a palma da mão, quem o lançasse para dentro de um círculo desenhado no chão e quem tentasse atingir o pião de outro jogador. Em algumas brincadeiras, o objetivo era manter o pião a girar durante mais tempo; noutras, era atacar o brinquedo do adversário.

E aquilo era assunto sério.

Um bom pião era estimado. A ponta metálica tinha de estar direita e bem firme, e muitos rapazes tratavam da madeira como se fosse uma verdadeira máquina de competição. Havia quem lixasse, afinasse ou até pintasse o próprio pião para o distinguir dos outros.

As regras variavam de terra para terra. Em alguns lugares riscava-se uma roda no chão. Noutros, cada jogador lançava simplesmente o seu e esperava para ver qual ficava mais tempo de pé. E, como acontecia com quase todas as brincadeiras antigas, também havia discussões:

— O meu ainda estava a girar!

— Não estava nada!

— Estava, sim!

Pouco depois já estavam todos novamente a jogar.

Nos anos 70 e 80, muitas crianças passavam grande parte do tempo livre na rua. Era ali que se encontravam os amigos e onde surgiam os jogos. O mesmo espaço podia receber pela manhã um jogo de berlindes, depois uma partida de futebol com duas pedras a servirem de balizas e, mais tarde, meia dúzia de rapazes concentrados à volta de um pião.

As joelheiras não existiam.

Os telemóveis também não.

E, muitas vezes, nem relógio era preciso.

Sabia-se que estava na hora de regressar a casa quando começavam a ouvir-se as mães a chamar das portas e das janelas.

Até lá, ainda havia tempo para mais um lançamento.

E depois outro.

Porque quando um pião começava a girar bem, toda a gente queria tentar outra vez.

Hoje, estes brinquedos continuam a existir, mas já não ocupam o mesmo lugar na infância. Ainda aparecem em feiras, recriações tradicionais e em algumas escolas, mas desapareceram de muitas ruas onde antigamente eram presença habitual.

Mesmo assim, quem brincou com um pião dificilmente esquece aquela sensação.

A corda bem apertada na mão.

O movimento rápido do braço.

O pião a bater no chão.

E depois aquele pequeno milagre de madeira a rodar, perfeitamente equilibrado, enquanto todos ficavam a olhar.

Era apenas um pião. Mas para uma criança daquela época, podia ser o centro de uma tarde inteira.