QUEM SE LEMBRA DAS VELHAS “PASTELEIRAS”?
🚲 As “Pasteleiras” dos anos 70 e 80 — quando uma bicicleta era liberdade sobre duas rodas
Há objetos que, vistos hoje, parecem simples. Mas para quem cresceu nas décadas de 70 e 80, uma bicicleta destas podia representar quase tudo: liberdade, aventura, independência e até responsabilidade. Em muitas terras portuguesas, sobretudo no interior, havia quem lhes chamasse simplesmente “pasteleiras” — bicicletas robustas, pesadas, geralmente de quadro alto, guarda-lamas metálicos e uma construção feita para durar muitos anos.
Nem sempre eram bicicletas compradas novas para as crianças. Muitas vezes pertenciam ao pai, ao avô, a um irmão mais velho ou até tinham passado por várias pessoas da família. E isso não impedia ninguém de aprender. Pelo contrário. Um cachopo pequeno agarrava-se ao guiador de uma bicicleta quase do tamanho dele, metia um pé no pedal e tentava equilibrar-se como podia. Quando o quadro era demasiado alto, aprendia-se a pedalar de lado ou por baixo da barra. O importante era conseguir andar.
A imagem lembra precisamente esse tempo. Uma criança esforça-se para dominar uma bicicleta grande, provavelmente pesada para o seu tamanho. Não há capacete, joelheiras ou rodinhas laterais. Havia uma rua, uma bicicleta e alguém, talvez mais velho, que tinha dito pouco antes: “Agora vai tu sozinho.”
As primeiras tentativas raramente corriam bem. Havia quedas, joelhos esfolados e guiadores que de repente pareciam querer ir para o lado contrário. Mas levantava-se a bicicleta, sacudia-se o pó das pernas e tornava-se a tentar. Ao fim de algumas tardes acontecia o momento esperado: conseguíamos seguir vários metros sem pôr os pés no chão.
E a partir daí mudava tudo.
A bicicleta passava a ser o meio de transporte para ir brincar à outra ponta da aldeia, visitar um amigo, ir buscar pão ou fazer um recado pedido pelos pais. Nos meios rurais, também podia servir para acompanhar alguém ao campo, transportar pequenos sacos ou simplesmente encurtar distâncias que, feitas a pé, pareciam enormes.
As velhas pasteleiras não eram propriamente leves. Quem alguma vez tentou empurrar uma numa subida sabe disso. O ferro pesava, os travões precisavam de atenção e, quando uma corrente saltava, começava logo a procura de uma pedra, uma chave ou qualquer coisa que ajudasse a colocá-la novamente no sítio.
Mas também eram resistentes.
Uma bicicleta podia levar anos de chuva, poeira, estradas de terra e quedas. Se furava um pneu, remendava-se a câmara de ar. Se a corrente fazia barulho, punha-se óleo. Se o guarda-lamas ficava torto, endireitava-se à mão. Quase tudo tinha conserto.
Havia ainda aquela pequena economia entre os miúdos. Quem tinha bomba emprestava a bomba. Quem sabia remendar pneus tornava-se rapidamente importante. E o dono da única bicicleta disponível podia descobrir que, de repente, tinha muitos amigos interessados em “dar só uma voltinha”.
Nos anos 70 e 80, para muitas crianças, ter acesso a uma bicicleta era ganhar um pedaço de mundo.
Permitira ir mais longe.
Chegar mais depressa.
E, sobretudo, descobrir aquela sensação extraordinária de perceber que bastava continuar a pedalar para deixar a rua de casa para trás.
Hoje existem bicicletas leves, mudanças sofisticadas, travões modernos e equipamento adequado. Tudo isso representa progresso e maior segurança. Mas uma velha pasteleira continua a despertar uma memória que a tecnologia não consegue reproduzir.
A memória da primeira queda.
Da primeira descida feita depressa demais.
Da mãe a gritar ao longe para termos cuidado.
E daquele dia em que, finalmente, alguém largou o selim sem avisar e nós continuámos sozinhos.
Talvez tenha sido uma das primeiras vezes na vida em que percebemos verdadeiramente o que era liberdade.
