QUEM JOGOU AO BERLINDE OU ÀS “GUÉLAS” NA RUA?

QUEM JOGOU AO BERLINDE OU ÀS “GUÉLAS” NA RUA?

🔵 Os Berlindes, ou as “Guélas” — quando uma rua de terra chegava para fazer uma infância inteira

Ainda me lembro bem daqueles tempos em que, para um cachopo se entreter, não era preciso televisão, consola nem telefone nenhum. Bastava haver um pedaço de rua de terra batida, meia dúzia de berlindes no bolso e outro miúdo disposto a jogar. Cá por estas bandas havia quem lhes chamasse berlindes, mas também se ouvia dizer guélas. E aquilo era assunto sério. Cada um tinha os seus, guardados como um pequeno tesouro, uns mais bonitos que outros, alguns ganhos à custa de muitas tardes de joelhos no chão.

Fazíamos um pequeno buraco na terra, riscávamos a zona do jogo e começava a disputa. O berlinde segurava-se entre os dedos e era preciso acertar com força, mas também com jeito. Quem tinha boa pontaria ganhava depressa respeito entre os outros. Havia sempre um rapaz mais velho que parecia nunca falhar e outro que voltava para casa com os bolsos mais vazios do que quando tinha saído. E também havia discussões, claro: “Isso não valeu!”, “Mexeste a mão!”, “Estavas mais perto!”. Cinco minutos depois já ninguém se lembrava e estávamos todos outra vez de cócoras, a medir a próxima jogada.

Lembro-me de uma tarde parecida com esta fotografia. Eu devia ter uns oito ou nove anos. Estávamos dois à porta de uma casa, numa rua quase sem movimento, e eu tinha levado comigo o meu melhor berlinde, um daqueles de vidro que parecia ter cores lá dentro. A minha mãe bem me tinha avisado: “Não leves esse, que ainda o perdes.” Pois perdi. Um rapaz acertou-lhe com uma jogada limpa e ficou com ele. Passei o resto da tarde aziado, a jurar que nunca mais jogava. No dia seguinte estava lá novamente. Era assim que funcionava a infância: as desgraças duravam pouco quando havia rua para brincar.

As calças ficavam com os joelhos brancos de pó, as mãos negras da terra e os sapatos levavam uma sova que depois ninguém conseguia explicar em casa. Mas nós não queríamos saber. Enquanto houvesse luz, havia jogo. Só quando começavam a ouvir-se as mães das portas — “Ó rapaz, vem para dentro que já são horas!” — é que se guardavam os berlindes e cada um regressava a casa.

Naquele tempo as ruas eram quase uma extensão do quintal. Havia poucos carros e os miúdos apropriavam-se de tudo: jogava-se ao berlinde, ao pião, à carica, à apanhada e ao que a imaginação inventasse. Um pedaço de pedra servia para marcar uma baliza. Uma lata transformava-se num brinquedo. E quem não tivesse dinheiro para comprar nada não ficava necessariamente sem brincar.

Não era tudo melhor, como às vezes agora se quer fazer crer. Havia dificuldades que hoje nenhum de nós quereria de volta. Mas havia uma liberdade diferente. Saíamos de casa de manhã e passávamos horas a inventar o dia.

Hoje vejo esta imagem de dois cachopos curvados sobre a terra e quase consigo ouvir novamente o som dos berlindes a bater uns nos outros.

Toc.

Um deles acertava.

O outro ficava a olhar.

E logo vinha a sentença:

— “Esse agora é meu.”

E assim, com meia dúzia de bolinhas de vidro e uma rua de terra, passávamos tardes inteiras sem perceber sequer que um dia haveríamos de sentir saudades daquilo.