QUEM SE LEMBRA DO TRABALHO DOS RESINEIROS?
🪵 O Trabalho do Resineiro — quando a floresta também dava o pão de cada dia
Ainda me lembro de ver os resineiros metidos no pinhal desde manhã cedo, muitas vezes antes do sol aquecer a terra. Levavam as ferramentas ao ombro, uma navalha ou ferro de corte, os recipientes para apanhar a resina e a experiência de quem sabia exatamente onde mexer na árvore. Não era chegar ao pinheiro e cortar de qualquer maneira. Era preciso saber abrir a ferida, limpar a casca, preparar a zona e colocar o pequeno recipiente por baixo, para que a resina fosse escorrendo devagar. Aquilo exigia mão certa. Um corte mal feito podia prejudicar a árvore e dar pouco trabalho aproveitado.
Havia homens que passavam o dia inteiro de pinheiro em pinheiro. Faziam a abertura, voltavam dias depois, renovavam a ferida e iam acompanhando cada árvore. A resina começava a descer espessa, pegajosa, com aquele cheiro forte que ficava nas mãos, na roupa e nas ferramentas. Quem nunca trabalhou nisso talvez olhe para aquelas pequenas tigelas presas aos troncos e não imagine o trabalho que estava por trás. Mas cada uma significava uma árvore preparada, visitada e acompanhada muitas vezes ao longo da campanha.
Conheci um homem que dizia que um bom resineiro conseguia reconhecer ao longe quais os pinheiros que estavam a produzir melhor. Bastava olhar para a cor da ferida e para a quantidade que já tinha escorrido. Eu achava aquilo conversa de homem velho, mas depois percebi que era verdade. Quem passa anos no mesmo ofício começa a reparar em coisas que os outros nem veem. Ele sabia quais as árvores mais generosas, quais tinham a resina mais lenta e quais precisavam de mais cuidado.
E aquilo não era trabalho leve. No verão, o calor apertava dentro do pinhal. O cheiro da resina tornava-se ainda mais intenso e as mãos ficavam coladas. Havia dias em que o corpo já pedia descanso muito antes de terminar a carreira de árvores que estava marcada para aquele dia. Mas o resineiro seguia. Árvore atrás de árvore. Porque naquele tempo o trabalho não acabava quando nos cansávamos; acabava quando a tarefa estava feita.
Ao meio-dia procurava-se uma sombra, tirava-se o pão do saco, umas azeitonas, queijo, chouriço ou o que houvesse. Sentava-se num cepo ou diretamente no chão e descansava-se um pouco. O silêncio do pinhal era diferente do silêncio do campo aberto. Ouvia-se o vento nas copas, algum pássaro e, de vez em quando, o som da ferramenta de outro homem a trabalhar mais adiante.
Depois vinha a recolha. A resina acumulada nos recipientes era retirada e juntada para seguir para transformação. Dali podia sair matéria-prima para diferentes utilizações industriais, como derivados de terebintina e colofónia. Mas para o homem que passava o dia na mata, aquilo tinha um significado mais simples: era sustento. Cada pinheiro tratado representava trabalho e cada recipiente cheio ajudava a levar algum dinheiro para casa.
O mais curioso é que muita gente hoje passa por um pinhal e vê apenas árvores.
Nós víamos trabalho.
Víamos dias inteiros passados ao sol, mãos marcadas, ferramentas afiadas e homens que sabiam ler uma árvore quase como quem lê um livro.
O resineiro não precisava de grandes máquinas.
Precisava de tempo, conhecimento e respeito pela árvore.
E ainda me lembro de ouvir um deles dizer:
— A resina não se tira à força. Deixa-se o pinheiro trabalhar.
Talvez seja essa a melhor maneira de explicar aquele ofício.
Era duro, lento e silencioso.
Mas durante muitos anos o pinhal também ajudou a pôr pão na mesa de muita família portuguesa.
