Quem ainda se lembra do amola-tesouras a passar pela sua rua?
✂️ Quem ainda se lembra do amola-tesouras a passar pela sua rua? E também diziam que, quando ele aparecia, vinha chuva? ✂️🚲❤️
“Olha o amolador! Facas, tesouras e navalhas para amolar!”
Ai, quem viveu nas aldeias do Alentejo há umas boas décadas há de se lembrar daquele som que vinha ao longe.
Não era uma buzina. Não era música da rádio.
Era o apito do amola-tesouras.
Mal se ouvia aquela melodia pelas ruas, logo alguém gritava dentro de casa:
— “Ó mãe, vem aí o amolador!”
E começava a procura.
Uma faca da cozinha que já não cortava o pão, a tesoura da costura, a navalha do avô, às vezes até um guarda-chuva avariado. Porque o amolador não fazia apenas uma coisa: muitos também reparavam sombrinhas, guarda-chuvas e pequenos utensílios domésticos. Era um verdadeiro artesão ambulante.

🚲 A oficina vinha montada na bicicleta
O homem chegava devagar, muitas vezes numa velha bicicleta adaptada.
Ali levava praticamente toda a oficina.
A pedra de esmeril ficava montada num sistema ligado aos pedais ou a uma roda própria. Quando começava a pedalar, a pedra rodava e o aço da faca soltava pequenas faíscas.
Nós, miúdos, ficávamos fascinados a olhar.
Parecia magia.
Mas não era magia nenhuma.
Era experiência.
Era preciso saber o ângulo certo, a pressão certa e o tempo certo. Uma lâmina mal trabalhada podia perder o fio ou até ficar estragada.
As bicicletas adaptadas com pedra de amolar tornaram-se uma imagem clássica deste ofício ambulante em Portugal.
🏡 Naquele tempo, nada se deitava fora
Hoje uma tesoura deixa de cortar e muita gente compra outra.
Naquele tempo não.
Chamava-se o amolador.
Uma faca durava anos e anos. A tesoura da costura passava da mãe para a filha. A navalha do avô continuava a servir enquanto houvesse aço para afiar.
Era uma lógica simples:
se ainda podia ser reparado, não havia razão para mandar fora.
Talvez por isso o amolador fosse tão importante.
Ele não vendia objetos novos.
Dava nova vida aos velhos.
🎶 E aquele apito… ninguém esquecia
O som era inconfundível.
Uma espécie de pequena flauta, com notas que subiam e desciam, usada precisamente para anunciar a chegada do amolador sem precisar bater de porta em porta. Em Portugal, esse som ficou tão associado ao ofício que ainda hoje muita gente reconhece imediatamente “a música do amolador”.
Havia até quem dissesse:
— “O amolador anda aí… vem chuva!”
Não sei quantas vezes isso acertou.
Mas sei que, quando o apito começava a tocar, apareciam mulheres às portas com facas e tesouras na mão.
🕰️ Um ofício que quase desapareceu
Os amoladores percorriam cidades, vilas e zonas rurais. Com o passar das décadas, as lojas especializadas, os produtos baratos e a cultura do “usar e deitar fora” foram reduzindo drasticamente a procura pelo serviço ambulante.
Hoje ainda existem alguns. Poucos.
E há homens que continuam a percorrer Portugal de bicicleta, mantendo viva uma profissão herdada de gerações anteriores.
Quando vejo esta fotografia, não vejo apenas um homem numa bicicleta.
Vejo uma rua antiga.
Uma porta aberta.
A minha mãe com a tesoura na mão.
E aquele som ao longe:
“Fiiiiiu… fiu-fiu-fiiiiiu…”
Há profissões que desaparecem.
Mas certos sons ficam guardados para sempre na memória.
